quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A FLORESTA DOS SENTIDOS

Estendi meus ramos para enredar-te
e para minha sombra desviei teus caminhos.
Desdobrei-me em folhas, diante dos teus passos
e, para não magoar-te, arranquei meus espinhos.
Desabrochei em pétalas, para receber-te
e exalei o perfume de tantas ilusões.
Me arrancaste da terra com indiferença:
teu espírito se embrenha em outras sensações.

... e a Poesia chegou!

A Poesia me chegou pra compensar a beleza:
a certeza de uma ruga não me mata de tristeza.
Uma vem, a outra parte: assim mesmo é a Vida.
Já paguei a Juventude.  Ganhei de troco a Poesia.
Cada fio de cabelo que embranquece, só me leva
a olhar menos o espelho e olhar mais pela janela.
Cada quilo que engordo - cronológica tendência -
faz mais leve minha pluma e também minha cadência.
Vou a vida observando,
com toda curiosidade, pois esquecendo de mim
vou encontrando a Verdade.
Não serei assim tão feia com o rosto bem maduro
pois, por velhos, são tão belos
velhas árvores e muros.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

AMOR DE VERÃO

Viveram aquele amor de modo bem passageiro:
breve noite de amor, que valeu um ano inteiro.
Duas almas tão carentes,
dois corações aos pedaços,
amparando-se, mùtuamente,
no consolo de um abraço.
Dois olhos se penetrando na nudez
da confissão
deixando que a própria pele
contasse da solidão.
Se deram àquele amor ao sabor
de cada hora,
e a lua, complacente,
fez retardar a aurora.
Se amaram com tanta febre que
esgotaram o ardor:
ao acorda não sabiam o que fazer
desse amor.
Partiram em seus caminhos com promessas
na bagagem, mas lembranças só restaram
no seu album de viagem.

ODE Á COMIDA

Comida - fatal castigo
que a Humanidade carrega,
pelo roubo da maçã no jardim
do Paraíso.
Comida - biológica exigência,
prazer que nos faz feliz.
Religião professada com Vaticano
em Paris.
Dia a dia legiões esfaimadas te procuram,
premidos pelos grilhões
a geladeiras vasculham.
Comer, prazer que deforma, deformidade social,
apareces pelas mesas da form mais desigual.
No Terceiro Mundo endêmico
a fome é o quinhão, dos traídos pela Historia
que vivem na contramão.
Mesmo em terras da bonança espalhas tuas torpezas
com sentinelas-balanças
nas classes ditas burguesas.
Comidas finas, comidas baratas,
são símbolos do poder
da vida desempatada.
Já dizia o general -
num arroubo genial -
essas palavras exatas:
"ao vencedor, as batatas".

CAMINHO DE VOLTA

Amigo,
vamos trilhando rumos opostos
neste vasto mundo.
Um vai e o outro retorna,
um foi longe e vem voltando
o outro, está apenas chegando.
Na mesma rota prossigo, sem somar:
subtraindo.
Quanto mais ando, mais perco.
Largo as vestes nos caminhos.
Quero ser caroço, osso,
semente que não se abriu;
quero o silêncio dos livros
(só aqueles que já li).
Quando passares, amigo,
talvez não esteja aquí.
Estarei, como Candide,
cultivando o meu jardim.


MEU CORPO

Não recuso os prazeres
que me oferecem os sentidos
mas cumpro os meus deveres com o corpo
como amigo.
Meus pés percorrer distâncias,
me levando ao meu destino.
Hoje já não tenho passos
tenho, sòmente, caminhos.
Minhas longas mãos se estendem
como de árvores os galhos.
Às vezes cantam com o vento
mas, geralmente, trabalham.
Os meus joelhos dobrados
para Deus são orações,
pedindo o impossível alento do coração.
Quando para um instante para contemplar
o mundo
olho, só para entender
e cego pra ver mais fundo.
Minha carne adormecida
já esqueceu o que foi.
Eu faço versos tão doces
para esquecer o Amor.

O RÁDIO

Da pessoa que trabalha
o rádio é um bom amigo:
deixa livre mãos e olhos
- ocupa só os ouvidos.
Ele fica alí na banca,
entre o torno e a marmita.
Se, em casa, ele sussura,
na oficina ele grita.
Para o pobre operário
é tijolo-maravilha,
que ele encosta no ouvido
com os olhos lá na catinga.
Verdadeiro patrimônio,
como um dote de família.
Da penúria é tesouro,
como uma herança de pilhas.
Amigo da costureira, do cego
e do motorista
é tão gostoso ouvi-lo
tocando a Ave-Maria.