A morte passou, um dia,
na porta de uma senhora
e lhe disse: "Cara amiga,
me convide qualquer hora".
A mulher foi só tremor,
pois tinha bela família.
Como ia querer a morte
nas graças da alegria.
Mas o marido da dona,
que a união sempre honrara,
faz casal com a vizinha
de forma bem descarada.
A mulher lembrou, então,
da cortesia da Morte.
- Quem sabe ela levaria
a amante do consorte.
Pediu e foi atendida
tendo a outra se finado.
Mas, ironia do Destino:
o homem morre enfartado.
Lamenta-se a viuva:
"A casa ficou vazia.
O leito parece enorme.
A rua mudou de mão,
a vida ficou disforme".
"Só penso em cobrir o corpo
com o leve peso da terra.
Estou nua de ilusões,
vestida só de esperas".
"Relembro o som do chinelo,
o acre odor do pijama.
O perfil contra a janela,
o doce ranger da cama."
"Destino tão desalmado!
que desviver tão doente.
Depois da perda do amor
a vida é um longo poente"
A pobre chora, cansada,
e manda buscar a Morte,
mas esta diz-se ocupado
cumprindo ordens da Sorte.
Mais um tanto, quase louca,
a pobre esconjura a vida.
Mas a saúde está boa e
a Morte nega a saída.
Replica a Morte, cruel,
"Virei te buscar depois.
Se eu te levasse agora
separava os outros dois".
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domingo, 30 de agosto de 2015
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