domingo, 30 de agosto de 2015

A renda

Dentre todos os enfeites
com que a pessoa se adorna
a renda é o mais versátil
pois lhe serve a qualquer hora.
Desde o berço ao casamento,
no atavio da moda,
na toalha do banquete,
no paramento e na toga.

Ornamento democrático
que atende a qualquer classe:
desde aquela que a fabrica
à que a usa com arte.

Material sutil,
floco, algodão, espuma.
Complexo qual teorema,
suave como uma pluma.
Revela sem desvendar
alguém que se embrulhe nela.
E mais franca que a cortina,
menos óbvia que a janela.

Mais transparência de bosque
que espessura de floresta.
Menos raio pelo vidro
que penumbra pela fresta.

Se vens do Terceiro Mundo,
onde és feita por mãos rudes,
não deixas nada a dever
as tuas primas de Bruges.
Arte setentrional da raça branca
que o colonizador trouxe ao nativo,
tua leve teia remonta
ao inconsciente coletivo.

- Nas sombrinhas de Renoir, és frívola.
- Nas mantilhas de Goya és lúbrica.
- Num punho de Rembrandt, és trágica!

Só perdes a vaidade
transplantada ao sertão,
onde és mercadoria-vida
que o pobre vende ao patrão.
Pois quem tudo já sofreu
e perdeu qualquer urgência
só tem para oferecer
os frutos da paciência.
A pobre mulher-rendeira
que a vende por mel-coado
passa da enxada aos bilros
e dos bilros ao roçado.

Naquelas terras ardente
onde o solo cancinado
recusa alimento às gentes
nem mesmo sustento magro
passeias tua pureza,
vestes sinhá e madrinha,
sais dos regaços tisnados
mais branca do que farinha.

Tua imagem é sagrada
naqueles ermos longinquos.
Tua brancura é o pão
na alma de um severino.









Um comentário:

Aurea disse...

Parabéns lindas poesias!